
Era final de tarde.
O sol começando a descer no horizonte.
As sombras começando a penetrar pela casa
fazendo o silencio se acomodar pelos cantos sem luz das salas...
Comecei a lembrar daqueles dias de sol da minha infancia.
Daquele costume de tingir as roupas de preto.
Quantas vezes eu vi aquelas mulheres repetindo aquela cena...
tingindo todas as roupas
tão cuidadas ...
tão limpas...
tão bem lavadas...
se tornarem todas elas de uma unica cor: preto
As latas de oleo servindo como baldes, como tinas...
para tingir as roupas de todas as cores que se multiplicavam em diferentes tons de preto.
Lembro da indignação e espanto ...
em ver todas as roupas se tornando pretas!!!
Era impossivel compreender.
Sinto o cheiro daqueles dias!!!
Como o incenso espalhado pelos diácomos nas igrejas, nos rituais religiosos,
garantindo o cumprimento da ordem divina em nossas vidas.
As mulheres estavam cumprindo um ritual...
em nome de Deus para a sagrada familia que deveriam manter e preservar,
a qualquer custo, ao custo de suas proprias vidas.
As mulheres vestiam preto.
As mulheres ficavam de luto, por longos e interminaveis dias...
por anos ...
por muito tempo...
muitas vezes emendando o luto de um e de outro...
sem nunca mais colocarem uma peça branca ou colorida.
As mulheres de preto viviam a vida dos maridos,
sem mais outra ocupação que não a de serem mães e donas de casa.
Que vida lhes restavam quando se tornavam viuvas?
O tempo correu e a vida mudou.
O preto tornou-se moda.
As mulheres conquistaram muitos espaços, tornando possivel recomeçar a vida.
Fazer carreira e seguir uma vida, mesmo que sozinhas.
Mas o preço de viver suas proprias vidas ainda é muito alto.
Maridos e filhos ainda cobram o tributo devido a familia,
sem nunca considerar realmente a individualidade do feminino.
Ainda há muito a ser conquistado!!!
Tudo isso me trouxe a lembrança de Jung e suas duas mulheres.
Jung que escreveu e viveu no inicio do seculo passado...
teve duas mulheres que por serem de familias ricas puderam ser eruditas, mas não puderam exercer plenamente suas habilidades como profissionais independentes.
As duas viveram à sombra de Jung como as duas torres que fazem parte da Bolligen...
onde Jung escreveu a maior parte de sua obra, dedicado aos seus estudos e ao seu trabalho com os pacientes...
Todo o resto era cuidado por elas.
Assim ficarm representadas pelas torres da casa.
A torre maior representando a esposa: Ema Jung que lhe deu 5 filhos e a manutenção da familia.
A torre menor representada por Tony, sua segunda esposa, companheira pessoal de vida.
Fica a pergunta: "Quando vamos falar sobre a individuação feminina?"

Gio © Copyright
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