sábado, 3 de março de 2012

A palavra tem força...

Eram uma manhã, como tantas outras...
Daqueles tempos intermináveis...
Daquele horas... marcadas pelo ritmo imperturbável do relógio
que se perde na morosidade dos dias
que se repete,
sem que nada se modifique.

Nessa mesmice, de todos os dias...
Estava sentada na sala de almoço de costas para a porta da cozinha, separando os grãos de lentilha, como de costume.
Meu marido lavando a louça do café, repetindo mais um dos hábitos que havia se formado ao longo dos anos, desde o inicio da nossa vida de casados.

Comecei a lembrar que nos primeiros tempos,

Ele ficava pela manhã em casa, só trabalhava no período da tarde, afinal havia a lua de mel. Era muito bom tê-lo mais tempo em casa!

Depois o motivo foi a minha doença,
Ele ficava pela manha em casa pra me ajudar, pois estava quase sempre sem empregada. Era bom poder contar com ele, mesmo que fosse só para ter um tempo a mais para cuidar das coisas!

Foram assim os dez primeiros anos da nossa vida em comum...
naquele tempo que se seguiu a minha doença.
Dez longos anos !!!
Vivi nessa espera, até que estabilizasse meu quadro clinico de infecções rescidivantes. Depois desta longo tempo, pude, aos poucos, voltar a estudar, pude retornar a minha vida de antes da septicemia. Muito embora, o meu trabalho tenha sempre seguido... apesar de todas as adversidades.

Sempre que falo sobre essa historia da septice, ela me parece cada vez menos real, a não ser pelo fato de que a minha vida ficou para sempre marcada a partir deste evento...
por situações inexplicáveis
que só consigo justificar por este meu problema de saúde, que foi tão grave, mas
que nunca ninguém assim o classificou

Por causa dele tantas coisas foram justificadas!!!
Meu marido passou a ficar em casa todas as manhãs, para sempre.

Agora aposentado...
ele está definitivamente em casa o tempo todo.
Foi assim que aos poucos ele estabeleceu regras e rotinas para a casa que se tornaram inquestionáveis, indiscutíveis...
que assim se estabeleceram frente a minha suposta incapacidade...

Incapacidade de que?
Incapacidade de ser como deveria ser, segundo o entendimento dele.
Ele tomou cada espaço da casa e o transformou numa versão dele, com a desculpa irrefutável de que tudo aquilo era para me ajudar.
Que desejo havia nisso?

Eu construí e cuidei de tudo de todos em cada mínimo pormenor, apesar de trabalhar e de estudar. Deste modo, sempre precisei de ajuda.

Sempre permiti ser ajudada.
Paralelamente a todo cuidado com a família e a casa desenvolvi minha carreira como docente universitária e depois como pesquisadora. Trabalho esse também nunca considerado, que com o passar do tempo... também ganha a mesma sensação de irrealidade.

No entanto,
a única realidade que permanece é que o meu marido toma conta de tudo, e eu sempre estive ausente primeiro pela doença, depois pela minha atividade acadêmica.
O que fica no ar? É que abandonei a família e que precisei sempre de ajuda porque sou incapaz


Neste instante, sou surpreendida em meus pensamentos
. Meu marido veio da cozinha... olhando de frente para mim ... e me perguntou:
_Porque essa cara de ódio? Porque tanto ódio?

Estranhei.
Afinal do que ele estava falando?

Esta quieta...
Estava absolutamente calada escolhendo os grãos de lentilha.
Será eu ele ouviu meus pensamentos?


Gio © Copyright

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