quinta-feira, 29 de março de 2012

O jornal




Era manhã de sol...
mas o sol estava batendo na parte de trás da casa, deixando a sala da
frente com aquela penumbra úmida.


Aquela linda sala de taco de madeira em formato de estrelas,com lareira de pedra, e janela ampla. A sala toda aberta, cortinas afastadas esperando por ser arrumada. Procuro me concentrar na vassoura.

Preciso prestar atenção se todo o espaço vai  ficar bem limpo.
Utilizo o desenho do assoalho para ir carregando o pó para um canto da sala e depois poder recolher tudo de uma só vez. Escolhi um canto da sala protegido da corrente de ar, onde poderia juntar o restante do pó que aos poucos ia sendo varrido. Estava de avental. Vestida como devia estar. Fazendo o que devia fazer. Precisava me concentrar nisso, logo seria avaliada, não queria, outra vez, ser repeendida.

O ato mecanico de varrer, olhando para baixo, focada na poeira, com o pano de fundo do assoalho e o desenho do avental, não me impedia de pensar no que havia acontecido poucos minutos atrás frente a lembrança, tambem rescente da fala da professora, naqueles primeiros dias do colegial.

A professora de português havia insistido que todas nós deveriamos ler o jornal, todos os dias.
Meus pensamentos voaram... frente ao paradoxo.
Como poderia ler jornal?

O jornal era do meu pai e portanto não poderia nunca ser mexido.
O jormal ficava aberto na outra sala, sobre a mesa de jantar.
Este era o costume de sempre.

Nessa manhã, eu havia tentado sentar na cadeira em frente aquelas folhas enormes dificeis de virar, com tanta coisa escrita. Bem que tentei com firme intenção de encontrar uma forma para dar conta da tarefa. Quando meu pai entrou na sala e disse que devia ir varrer a sala.
- Ponha o avental, menina.
Vá varrer a sala, esta perdento seu tempo, já devia ter terminado sua tarefa. 

Tentei argumentar mas em vão. Ele não me deu ouvidos. Não me restava outra alternativa a não ser seguir suas ordens. Afinal era o que uma filha devia fazer.  Quem sabe a professora não quis dizer exatamente o que tinha entendido ou aquela orientação não era exatamente para mim.

Este conflito me seguiu até os anos do casamento.

A cena se repete.
A assinatura do jornal é do meu marido,
que não gosta de ver as folhas mexidas por ninguem alem dele.

Gio © Copyright

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